O
Vento rolava no penhasco, e depois de tocar o oceano, atirando-o
contra o rochedo, elevava aos céus o espumaredo. Então,
subia em desespero a escarpa, onde no mais alto de seus promontórios,
no tronco do velho carvalho, pendente sobre o abismo, a orquídea
o aguardava entre sorrisos de amor.
Podia-se sentir a fragrância
que dela emanava, quando as primeiras luzes da manhã,
acarinhavam suas pétalas. Seus matizes atraíram
os olhares do vento, desde a primeira vez, quando viu o sol
deitar-se sobre ela , atiçando ainda mais seu cintilar.
Como se isso fosse possível...
Não se contivera em apenas
fitá-la. Rendido, aproximou-se, vestido de aragem, num
primeiro momento. Com sua mansuetude, despertou a atenção
da linda orquídea. O coração da aragem
pulsou descompassadamente e sem que percebesse, voltou a transformar-se
em vento, dada a emoção que em si avolumava-se,
quando em pensamentos, percebia-se em frêmito, ansiando
aquela flor sempre tocar.
Rodopiava faceiro, espalhando folhas,
e num breve instante a abraçava em doido anseio, balançando
suas pétalas brilhantes em acintosa felicidade, para
o mar que bramia lá embaixo.
Ensandecido, o oceano, enciumado,
alteava-se em ondas poderosas que despedaçavam a rocha,
tentando alcançar a flor maravilhosa que há muito
tomara seu coração, e, quando a via nos redemoinhos
do vento, seu troar fazia tremer o penhasco e até o velho
carvalho oscilava na beira do precipício.
O rugido do oceano era audível
nos mais longínquos recantos do universo. Havia um agitar
frenético que feria os ouvidos da natureza. Nessas ocasiões,
o coração da orquídea batia assustado e
gotas de orvalho, deslizavam gritando em suas pétalas
aflitas.
Átimos durava a felicidade
do vento. Então ele partia, repetindo a agonia que era
sua sina desde o início dos tempos. Buscava eternizar
aquele breve contato, mas ainda que tentasse, jamais poderia
permanecer. Enquanto se despedia, levava em seu âmago
a fragrância da orquídea e assim, encontrava forças
para cumprir sua missão. Seu destino era correr o mundo,
viajar por terras distantes, assobiar no cume das dunas de desertos
longínquos, percorrer bosques de eucaliptos perfumados
e rodopiar pelos céus, dançando com as borboletas...
Percorria o mundo inteiro, e, em suas alegrias, dispersava tempestades,
levantava nuvens de poeira e farfalhava as folhas das florestas...
Era a estação das festas.
Mas, quando lembrava da gentil
orquídea que aguardava seu retorno, seus sorrisos cessavam.
Então, apressava o seu voar. Avançava em linha
reta, e como furacão, varria tudo que encontrava em seu
caminho, sem que nada o importasse. Seu amor estava a aguardar!
Era só nisso que pensava, e célere corria, quanto
mais pressentia aproximar-se o seu chegar. Finalmente, apenas
o oceano o separava de sua amada. Acelerava seu planar por sobre
as ondas, e encapelando-as, em procelas as desfazia. Às
vezes, brincava com elas, espalhando pelo céu suas espumas...
Se nuvens negras barravam-lhe o
caminho, expulsava-as de sua rota, devolvendo-as ao mar. Nada
podia detê-lo... os olhos do tempo, faziam-no lembrar
de que a orquídea já lhe abria pétalas
de beijos, aguardando-o em sua alcova perfumada, com seus lábios
umedecidos pelo orvalho. Turbilhões de inquietações
o perturbavam, ao lembrar da fragilidade de sua doce amada.
Nesse dia, tinha pressa, a saudade
era atroz, e depois de uma volta ao mundo, vinha risonho, feliz
e veloz... Havia algo de estranho, entretanto, desta vez! Lá
no alto do promontório, o carvalho ele não avistou.
Apenas viu um rochedo imenso, na fímbria do oceano, e
lá no alto, o vazio, de onde havia se soltado... Ao seu
redor, jazia o carvalho, despedaçado... Galhos boiavam
ao longe, folhas soltas esvoaçavam nessa triste e trágica
paisagem...e sua amada, onde estaria?
Foi então que ele a viu
nos braços do oceano... Inerte, boiava sem vida, com
as pétalas destroçadas, aos poucos sendo empurrada
para o alto mar... Bramiu o vento o terrível lamento
que se ouve dos amantes em desgraça!
Candidamente, rodopiou ao redor
da amada, e transportou-a delicadamente ao alto do penhasco,
onde a depositou com o desespero dos sonhos perdidos, sobre
o tronco de um grande jacarandá. Depois chamou a si todos
os pólens que transportava pelo mundo e semeou-os no
mesmo galho, formando um lindo jardim...
Como uma triste brisa, ele sobrevoou
ainda por algum tempo o local onde deixara a amada, e depois,
alçou vôo tempestuoso. Passou raivoso por sobre
as colinas distantes, e, invocando os poderes de Odin, seu criador,
desceu em impiedosa tormenta sobre o oceano, atirando-o contra
os rochedos, erguendo-o em torres d'água monstruosas,
que subiam, sugadas por furacões impensáveis,
que eram atiradas e espargidas aos espaços onde pulverizavam-se,
desaparecendo no horizonte.
Por muito tempo ficou o vento a
fustigar o oceano, até que, extenuado, foi embora, deixando
no mar um rastro de espuma, último vestígio da
luta dos titãs. Njord, o deus dos oceanos e Jord, a deusa
da terra, foram chamados à presença de Odin que
lhes ordenou jamais se envolvessem novamente em conflitos terrenos,
porque, temia ele que nunca mais o vento e o oceano voltassem
a ser amigos.
Mesmo assim, longe das vistas de
Odin, ainda se pode ouvir o bramido da batalha surda, quando
se encontram o oceano e o vento em algum precipício de
rochedo, distante...
E, desde então, o vento
vaga em solidão, sussurrando entre os penedos, numa triste
melodia à amada , e, para que ela viva sempre em sua
lembrança, por onde quer que passe, escreve versos na
aquarela dos sonhos daqueles que sabem reconhecer em seus sussurros,
doces canções de amor...

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CRÉDITOS
AUTORAIS MIDI:
"Missing
you " - Copyright © 2001
Yuko
Ohigashi
A
música que está tocando é uma composição
original da pianista ©Yuko
Ohigashi e está sendo utilizada com permissão
da autora. Para obter maiores informações
e conhecer seu trabalho, visite o site oficial de ©Yuko
Ohigashi, pois suas músicas só podem
ser utilizadas com permissão. Visite o site e conheça
o maravilhoso trabalho desta jovem pianista, clicando no
banner abaixo:

IMAGEM:
"Jungle Orchids and Hummingbirds" by ©Martin
Heade
TEXTO:
"A flor e o vento", de ©J. B. Xavier
e Fernanda Guimarães.
Publicado com permissão.
Todos os direitos reservados ao autor.
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